CHAMADA ABERTA CONTRA O FASCISMO


Curadoria: Bia Bittencourt, Diego Posada and Lior Zalis
Junho, 2019

Chamada aberta para envio de livros ou projetos de livros a fim de construir uma biblioteca itinerante que se inicia dentro do espaço PrintRoom em Rotterdam, Holanda.

︎ ENVIE SEU PROJETO


A ascensão da ultra-direita no mundo não é um fenômeno uniforme. Cada um dos movimentos políticos e seus contextos tem características particulares, e, portanto, devem ser abordados em suas peculiaridades para que possamos estudá-los, compreendê-los e elaborá-los. No entanto, também é inevitável analisar o ambiente global que permitiu a consolidação dessas políticas autoritárias, bem como os aspectos comuns entre elas. É necessário entender como uma forma de governo que se espalhou globalmente e que produziu o ambiente propício para ele florescer, aparece como alternativa desejável e horizonte político legítimo como resposta aos problemas globais e locais.

A pergunta sobre o porquê da ascensão destes movimentos em diferentes espaços aparece ante a urgência de não só entender, mas também de poder elaborar táticas para enfrentar, resistir e construir alternativas. Podemos destacar algumas análises que vêm sendo realizadas em diferentes áreas do saber. Enquanto a pensadora americana Wendy Brown observa a partir da América do Norte como a soberania popular das democracias é desfeita e emerge uma forma de "liberdade autoritária", do outro lado da fronteira, em Tijuana, Sayak Valencia torna visível o lado B do neoliberalismo, um "capitalismo gore"; um conceito segundo o qual a criminalidade e a violência fazem parte da economia global. Localizado na África, Achille Mbembe mostra como a necropolítica é uma forma de governo, que já não se concentra na administração da vida como biopolítica, mas da morte; assim, a guerra, a violência e o Estado de sítio tornam-se permanentes para assegurar a extração contínua de recursos de territórios historicamente colonizados.

Essas são novas formas de pensar a direita? Se há uma recuperação de formas e estéticas dos fascismos do século XX, como podemos questionar as condições históricas, sociais, econômicas e políticas  que permitiram a emergência destes fenômenos políticos autoritários no passado e no presente? Como caracterizar e nomear governos e tendências autoritárias que se expandiram em todas as esferas da sociedade? O fascismo é uma categoria de análise suficientemente adequada para o atual boom dos partidos de extrema direita em nível global?

Ante este contexto, buscamos com imagens, textos, materiais e saberes de diferentes disciplinas ler o presente no contexto de sua emergência, na sua construção e desenvolvimento. Entender, por isso, como o autoritarismo e o neoliberalismo se estruturam, funcionam e, principalmente, ganham em muitos níveis da vida política. Queremos pensar o fascismo — ou como queiram chamá-lo — para expô-lo, dar-lhe visibilidade e dissecá-lo. Entender, por fim, como ele faz corpo e sobrevive.

Invocamos, portanto, esta reflexão para poder reagir contra ele. Armar-nos com imaginários, vocabulários e experiências concretas para repensar conceitos e práticas que mobilizam os corpos, espaços, políticas e imagens que ajudam a legibilizar os diferentes presentes atravessados por esta emergência autoritária, neoliberal e fascistóide. Essa chamada invoca inventariar palavras e imagens que possam oferecer outras formas de entender essa práxis estético-política hoje.



Livro de Carne, Artur Barrio (1978-1979), Rio de Janeiro - Brasil

︎ Leia em inglês